“Estamos construindo um novo São Paulo”: como um dos maiores clubes de futebol do país prepara uma mudança radical de cultura

Andressa Rovani | 10 jan 2022
Parte da equipe de compliance do SPFC, que é formada por Roberto Armelin, Roberta Codignoto, Rodrigo Bertoccelli, André Fittipaldi, Daniella Caverni, Fernanda Rodrigues e Gustavo Nadalin. (Foto: Divulgação)
Andressa Rovani | 10 jan 2022

Uma mudança radical de cultura está em curso em um dos maiores clubes de futebol do país, o São Paulo Futebol Clube. Desde o início do segundo semestre de 2021, uma equipe especializada se dedica a construir um projeto que amplie o profissionalismo na gestão do clube, atraia mais investidores e faça o amadorismo típico dos times brasileiros virar coisa do passado.

Em um movimento pró-ética iniciado em 2016 pelo Coritiba, o São Paulo quer se tornar referência de integridade com forte aposta na governança. E, ao transformar seus funcionários, jogadores e torcedores, provocar um impacto real na sociedade brasileira. Batizado de PIT (Programa Integridade Tricolor), o projeto é coordenado pelo diretor jurídico e compliance officer, Roberto Armelin, e tem na equipe Roberta Codignoto, responsável por cultura, treinamento e comunicação. “Estamos contribuindo para a construção de um novo SPFC. É uma nova era”, diz Armelin.

Em conversa com NetZero, eles explicam sobre que pilares esse novo SPFC está sendo construído e como a conformidade vai agora virar a regra do jogo.

NETZERO: O PIT foi lançado no segundo semestre de 2021. Como o clube identificou que essa era a hora de criar a área de compliance e o que já foi possível construir nesses primeiros meses?

ARMELIN: Em 2018, nós fizemos um evento chamado Jogo pela Ética, e a ideia foi trazer o tema da integridade para dentro do Morumbi e tratá-lo com profundidade. Eu fiquei no SPFC de 2005 a 2017 como diretor jurídico, ajudei a realizar esse evento e, no ano passado, o presidente do clube, Julio Casares, me convidou para voltar. Eu me coloquei à disposição para assumir a área de compliance e montei meu time. Começamos com o apoio da alta direção, porém sem orçamento, sem a existência da área, sem nenhum colaborador.

Por que você quis assumir a área de compliance do clube?

ARMELIN: Passou da hora de o esporte se organizar e parar de fazer coisas amadorísticas. O que eu sei fazer é compliance e sabia que poderia ter um time de qualidade. Temos outras necessidades do ponto de vista de modernização de gestão. Mas sabia que se a gente estruturasse a área de compliance, naturalmente avançaria anos-luz em termos de organização, transparência e valores. Porque o SPFC é um time que historicamente buscou os melhores valores. Talvez nos últimos anos isso não tenha sido seguido como gostaríamos, mas faz parte do nosso DNA.

A implantação do programa na empresa foi mais difícil do que vocês imaginavam?

ARMELIN: Ah, foi. Porque a gente tem o desafio da comunicação. Eu já sabia que o pilar mais importante do nosso programa seria a cultura, o que exige comunicação e treinamento. Porque nenhum outro time, que eu saiba, tem uma área de compliance profundamente estruturada, então temos um problema de cultura no segmento e nas pessoas. A imensa maioria não sabe como funciona, mas a receptividade dos colaboradores foi fantástica, a resistência foi quase inexistente.

Quando a gente mostra que vai ser bom para o clube e para as pessoas que trabalham nele, todos vestem a camisa. Os colabores do SPFC também são torcedores, querem o bem da instituição. Então temos essa carta na manga para acelerar esse programa em 2022.

ROBERTA: Quando chegamos, vimos que o clube funcionava quase como uma repartição pública; por exemplo, o holerite era impresso um a um. Tivemos que suspender o trabalho e focar na infraestrutura, senão não teríamos mecanismos para trabalhar.

Fazia-se coisas que não tinham muita reflexão, sem muitas consequências. Queremos trazer transparência e empoderamento das pessoas. Isso estrutura todo nosso programa.

E como será feita essa aceleração?

ARMELIN: O que conseguimos entregar em 2021 não foi o que a gente gostaria, porque não conseguimos fazer um mapeamento de riscos ideal, por conta da pandemia e do tamanho da empresa. São mais de mil colabores em três endereços diferentes – Morumbi, Cotia e Barra Funda. Então caprichamos na construção de normas e políticas e de um código de ética e conduta, além de construir nosso canal. E começamos um projeto para criar um portal de comunicação interna para uma conversa assertiva e em tempo real com os colaboradores.

Para este ano, nosso programa tem 11 pilares, mas o 11º a gente chamou de certificação. Existe uma “certificação de mercado” chamada Pacto pelo Esporte, que é fantástica e faz parte do projeto desde o princípio. É um pacto formado por diversas empresas de primeira linha comprometidas em só investir dinheiro em entidades desportivas que têm programa de compliance.

Então, voltando à sua pergunta, neste ano vamos ingressar no Pacto, através do rating Integra, para fazer parte desse compromisso de trabalhar pelo esporte com ética, integridade, governança e transparência. Em segundo lugar, vamos fazer o mapeamento de risco assim que o portal entrar no ar, o que deve acontecer nos próximos dias. E, em terceiro: treinamento, treinamento, treinamento. Isso fará parte da rotina diária de todo mundo.

ROBERTA: O portal é necessário para conectar as pessoas. Menos da metade dos funcionários tem acesso a email institucional. Então iniciamos a construção um portal, em que os colaboradores vão poder acessar do celular, com tudo relativo ao RH, além de vídeos educativos e todo o treinamento.

Nosso programa se encaixa em uma estratégia ESG. A frente ambiental é a “Frente Tricolor Consciente”, com campanhas de educação. Como eu faço parte do Pacto Global há muitos anos, eu quis fazer esse projeto conectado com os ODS nas três frentes. O social será feito via “Jogando pela Ética”, um desdobramento do jogo de 2018. E o “G”, de governança, é essa área de compliance que estamos detalhando.

Foi elaborado um código de ética para o SPFC?

ARMELIN: Ele já existia e foi revisado, modernizado. O primeiro treinamento depois que o portal estiver no ar será sobre ele, incluindo alta gerência.

Depois dos treinamentos e do portal no ar, como fazer com que o código de ética de fato seja seguido?

ARMELIN: Por isso o portal é uma ferramenta importante, porque todos os treinamentos e normas estarão nele. O treinamento será obrigatório. Obviamente, nos primeiros meses, talvez anos, o enfoque será pedagógico, porque estaremos num processo de mudança radical de cultura.

Mas os canais estarão funcionando e as faltas graves –e eu diria que assédio e discriminação são as faltas mais graves que podem ocorrer e que não podem ser aceitas- serão endereçadas corretamente. Estamos atrelados a um conselho de administração e um comitê de integridade é vinculado a ele.

ROBERTA: Precisávamos aculturar as pessoas, explicar porque precisamos de cada um desses pilares. Já treinamos 92 líderes com essa abordagem educativa. O PIT é para dentro e para fora dos muros, preciso atingir essa gama gigantesca de stakeholders. O Morumbi é uma cidade.

Não tem como falar de esporte sem lembrar de escândalos de corrupção, inclusive no SPFC. Como o combate à corrupção será abordado no programa?

ARMELIN: Isso é interessante. Estamos obviamente montando o programa também endereçado ao combate à corrução privada, mas é interessante constatar que muitas das falhas acontecem por falta de orientação e de conhecimento das regras de bons princípios e bons valores. Há um vazio de orientação resultante dessas décadas de gestão amadora.

Acredito, sem ser Poliana, que ao construir essas regras internas e ensinar o que pode ou não fazer, as pessoas passarão naturalmente a fazer o certo. Mas também teremos procedimentos de investigação interna, está tudo pronto. Teremos canal para relatos atrelado à responsabilização. É uma mudança muito drástica de cultura.

ROBERTA: Fizemos toda uma customização para que a ferramenta não tenha caráter de perseguição. Não usamos o termo “denúncia”, usamos relato justamente para indicar que estamos criando uma cultura de relatar, de pedir ajuda. E trocamos “investigação” por “apuração”.

O tema da corrupção pública no esporte é até de menor importância, porque a corrupção privada é gigantesca. E isso afeta a vida dos atletas, das crianças.

Sabemos que o esporte tem o dom de impactar, negativa ou positivamente, nas crianças. Queremos educar pela ética através do esporte, e vamos começar com cerca de 100 filhos dos colaboradores, que vão brincar em torno de valores. Criamos três mascotes, que vão estimular as crianças a pensarem sobre isso. Sabemos do impacto da educação das crianças sobre os pais.

Qual vocês esperam que seja o impacto dessa mudança no potencial de investimentos e na sustentabilidade do clube?

ARMELIN: Nossa expectativa é a mais alta possível. Depois de entrarmos no Pacto, queremos efetivamente mostrar para o mercado que o SPFC está se organizando como uma empresa, para se desenvolver de forma sustentável, dando segurança em todos os níveis aos nossos parceiros.

Queremos também com isso mostrar ao mercado que estamos ajudando a construir um novo SPFC. É uma nova era, com a consciência de que entre os nossos stakeholders existem quase 20 milhões de torcedores. Queremos a evolução daquele jogo de 2018.

Como o Roberto citou, os clubes de futebol ainda têm uma gestão bastante amadora. Mas que pontos tornam a governança mais desafiadora nesse caso?

ROBERTA: A gente ainda tem a cultura de alguns que trabalham para o São Paulo sem remuneração, mas depois recebem alguma vantagem. Isso acontece em todos os times. Como construímos isso para que os colaboradores entendam que há conflito de interesses? Começamos a trazer as questões do Pacto pelo Esporte, e gerou interesse a oportunidade de ter investidores de peso olhando para o clube. Mas é preciso ter a casa organizada para atrair dinheiro. Due diligence [processo de investigação de uma oportunidade de negócio] não é para criar caso, é para não ter problema depois. Vamos construindo isso com eles, não somos xerifes.

Como fazer o compliance entrar nos gramados?

ROBERTA: Nos marcou muito o episódio do Rodrigo Caio. Ele fez a coisa certa, levantou a mão e disse que a falta foi dele. Quando ele desceu, foi muito criticado. No dia do Jogo pela Ética, foi feita uma homenagem para ele e ele não foi receber, ele não queria mais falar isso. Não podemos punir alguém por fazer a coisa certa.

Por isso os mascotes, para que nossos colaboradores disseminem na sociedade que o time não pode ganhar de qualquer jeito, não vale ganhar a qualquer custo, não vale gol com a mão. Precisamos falar do respeito entre os times. De todos os meus desafios, fazer o certo no jogo tem sido um dos principais. Eu sei que ainda vai levar tempo para mudar essa mentalidade.

Esse caso pode comprometer meses de trabalho sobre ética e transparência. Mas, para além dos funcionários do clube, como engajar a equipe técnica e os jogadores?

ROBERTA: Por meio da pressão social. Quando a gente imaginaria que clubes seriam condenados por gritos homofóbicos da torcida ou que teriam que vir à público para se desculpar por algo assim? A torcida começa a ver que pode prejudicar o time, temos que construir essa cultura. Mas precisamos de medidas diferentes para culturas diferentes.

É um caminho sem volta porque está se tornando uma pressão da sociedade. Veja o caso do Santos, que veio à público dizer que não quer ter pessoas preconceituosas entre seus torcedores. Estamos entrando no último reduto de machos alfa xingadores, onde tudo era possível. Como a gente vai construindo isso? Aos poucos. E eu tenho certeza do potencial de transformação que esse projeto tem.

O ponto positivo é que tem esse amor, as pessoas querem participar. Várias vezes eu escutei: “Se é bom para o SP, eu vou fazer”. O turnover é baixíssimo e há muitos colaboradores que estão há 20, 30 anos na empresa. É um potencial grande de fazer um modelo piloto para envolver todos os times do Brasil. Não temos problemas que outros times queiram usar esse modelo. Já fui procurada por outros clubes e vemos que estamos levantando a régua para criar um fortalecimento na integridade do esporte como um todo.

Como esses resultados devem ser mensurados?

ROBERTA: Desde o começo nos preocupamos nos nossos KPIs (Key Performance Indicator). O portal vai calcular quando que o colaborador entrou no treinamento, quanto tempo ficou, por isso o portal é importante. Cada pilar mede o que fizemos, o que está em progresso e o que precisa ser feito, tudo com cara de futebol.

Nosso plano é de três anos. Em 2021, educamos os gestores, desenhamos o que queríamos fazer, buscamos eventuais patrocinadores. Agora, precisamos dessa ferramenta [portal], que vai saber quantos e como foram treinados. Junto com o portal, vamos criar a Universidade Corporativa do São Paulo, o que também vai alimentar o “S”, do ESG.

Prevíamos para o terceiro ano do projeto alcançar a certificação do Pacto para o Esporte, mas eles sugeriram que aplicássemos agora, para que eles possam identificar as fragilidades e acompanhar. Daí seremos ranqueados e vamos evoluindo. Isso nos deu energia para trabalhar mais forte para convencer os líderes, que olham para os patrocinadores. Os olhos brilham de poder estar em um ranking tão importante.

Vamos medir a evolução com base nos tipos de relato que teremos no ano dois. E somos audaciosos, miramos o Pró-Ética da CGU.



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