“Vemos mulheres andando pelas ruas com crianças dentro da carroça; virou paisagem urbana. Por que achamos isso normal?”

Andressa Rovani | 10 nov 2021 Andressa Rovani | 10 nov 2021

A imagem de um lixão, que a maioria das pessoas conhece apenas pela TV, é descrita por Rodrigo Oliveira em detalhes. O cheiro, o rastro de chorume, crianças em busca de algum material aproveitável, mulheres grávidas pisando em seringas, o embrulho no estômago.

Formado em administração e com mestrado em sustentabilidade, Oliveira trabalhava com projetos de engenharia de disposição de resíduos sólidos. Visitas a aterros sanitários e lixões era parte de seu trabalho, mas ele nunca se acostumou com as cenas que via.

O desconforto deu origem a um questionamento. Ele explica: “Eu gosto de fazer um paralelo com a extração de matérias-primas da natureza. Por exemplo, quando a areia que vira vidro ou a celulose vira papel, as grandes empresas sustentam a mão de obra que permite essa transformação. Ou seja, quando esse material vai se tornar uma embalagem, as indústrias têm tranquilidade de que esse processo teve a mão de obra respeitada”, diz ele.

“Então porque quando a gente fala de embalagem reciclada, com todo o apelo que ela tem, podemos vendar nossos olhos para a questão social e aceitar que esse material seja recolhido de cima de um lixão pela mão de crianças?”

Se essa pergunta também te provocou um embrulho no estômago, imagina o impacto nas empresas atentas às questões ESG. Há três anos, Oliveira e outros dois sócios lançaram a Green Mining e fizeram parte das 21 startups em todo o mundo escolhidas pela Aceleradora 100+ da Cervejaria Ambev.

“Quando a Ambev lançou suas metas de sustentabilidade, que estão atreladas às ODS, eles foram a mercado buscar soluções. A gente propôs uma solução que já envolvia nosso conhecimento de rastreabilidade e eles toparam. Desenvolvemos um sistema de logística reversa dentro da Ambev e somos fornecedores deles desde então”, diz Oliveira.

A Green Mining nasceu para atender uma demanda imposta pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece que as empresas são responsáveis por seus resíduos até a destinação final. Unindo tecnologia e meio ambiente, startup está voltada para a logística reversa – o recolhimento dessas embalagens pós-consumo.

Dos quatro responsáveis pela logística reversa, Oliveira ressalta que os fabricantes são os mais cobrados. São eles, então, que contratam a Green Mining para ir a mercado rastrear esse material. Isso significa, por exemplo, ir aos bares e restaurantes, retirar as garrafas de vidro e dar a destinação correta a elas.

“A gente capta esse material e faz a parte complexa, de formiguinha, que está fora das fronteiras da indústria. A gente faz com que esses resíduos não vão parar em lixões, aterros, praias, córregos. O importante é fazer de verdade, não com soluções-fumaça. Não adianta colocar emoji na embalagem e pronto.”

UMA EMPRESA AMBIENTAL, MAS COM FOCO NO SOCIAL

Tudo o que você leu até aqui pode fazer com que você acredite que o foco da Green Mining é ambiental. Mas essa startup vai muito além. O coração da empresa está nos catadores, cujos braços dão capilaridade para o negócio. “Há grandes empresas querendo fazer um projeto ESG de verdade. O ‘E’, de environmental, é o que a gente mais ouve. E, apesar de ser óbvio, é algo que ninguém fez: contratar o catador, ou seja, garantir também o ‘S’ do ESG”, explica Oliveira, em referência às ações de impacto social.

“Nosso tripé ESG é muito robusto. Nós somos uma empresa ambiental, coletamos materiais para irem para a reciclagem e geramos todos os benefícios que a reciclagem gera. Mas decidimos, por propósito, que nosso pilar é social.”

Para fazer a coleta dos materiais pós-consumo, a Green Mining conta com 28 trabalhadores, que passaram de catadadores nas ruas das cidades a coletores contratados: lá, eles são contratados com carteira assinada, recebem salário acima do mínimo, trabalham 6 horas diárias e têm acesso a direitos, férias e benefícios. “São pessoas que já estão colocando a mão no lixo dos outros – uma atividade que ninguém sonha para seus filhos. São pessoas que já estão fazendo isso em busca de um trabalho honesto, em busca de algum tipo de remuneração, e merecem respeito como qualquer outro trabalhador.”

Rodrigo Oliveira, presidente da Green Mining (Fotos: Divulgação)

Oliveira lembra que, em certo momento da nossa história como país, decidimos, corretamente, tirar os burrinhos e outros animais que puxavam as carroças de quem recolhia material reciclável pelas ruas. Mas a gente colocou o ser humano nesse lugar.

“Hoje tem mulheres andando pelas ruas com as crianças dentro da carroça; senhores de idade andando 10, 12 horas por dia. Por que achamos isso normal? A gente já se acostumou com essa paisagem, virou paisagem urbana. Está errado. Não podemos querer que isso exista daqui a dez anos.”

Além do desprezo por quem faz esse trabalho nas ruas das grandes cidades, a população brasileira não aprendeu ainda a separar e tirar proveitos dos materiais para uma coleta seletiva adequada. Quase metade das embalagens que chegam a uma usina de reciclagem precisam ser descartadas por erro na seleção feita na fonte. Mas isso revela o potencial envolvido nesse modelo de negócio.

“Precisamos ter mais conscientização do nosso papel como cidadão na separação desse material reciclável. Esse material precisa ter qualidade, se não ele vai ser rejeitado. Nos posicionamos de forma a valorizar quem separa na fonte os materiais.”

UNINDO AS ESTRATÉGIAS DE E, S e G

Para a empresa que é cliente da Green Mining, há a certeza de que não há trabalho infantil ou degradante, garantindo que a sustentabilidade seja verdadeiramente cumprida ao longo de toda a cadeia.

“Estamos aqui para ajudar as empresas a mostrar e dar transparência nesse processo, em direção a um futuro mais inclusivo e mais respeitoso com as pessoas. Queremos mostrar que o S é fundamental, são as pessoas envolvidas no processo.”

Isso faz com que a terceira letra se junte ao projeto: a governança. “Não existe ‘E’ nem ‘S’ sem o ‘G’. O ‘G’ é fundamental para os outros pilares”, diz Oliveira. “Hoje temos uma rastreabilidade de passo a passo da cadeira. Todo o nosso sistema está baseado em block chain, ninguém pode manipular dados. Tudo o que foi pesado entra no nosso sistema e não sai mais. Isso vai ser levado até o hub, onde é enfardado, é pesado mais uma vez, e ao chegar ao ponto de reciclagem é pesado de novo. Esses dados têm que bater.”

A noção do todo tem feito com que a Green Mining tenha resultados expressivos. O viés inovador da iniciativa fez com que ela fosse alvo de uma reportagem do Projeto Draft há quase um ano. Dos 7 clientes que a empresa tinha naquela época, se somaram outros 13: são gigantes como Ambev, Brasken, Natura, O Boticário, Sabesp, entre outras.

A empresa triplicou o faturamento no ano passado e deve dobrá-lo neste ano. A expansão também é física: a Green Mining já está em Trancoso, em Fernando de Noronha e em Goiás.

“As multinacionais querem trabalhar com a gente porque conseguimos entregar compliance. Quem quer fazer de verdade está se engajando nisso, e é um número de empresas cada vez maior. O atalho é fácil quando as empresas não conseguem perceber o tamanho do abismo que tem nele. Por isso precisamos do G.”



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