Startup gaúcha triplica de tamanho e chega a 10 estados com soluções inovadoras para gerir resíduos de grandes empresas

Andressa Rovani | 30 nov 2021
Pontos de coleta de resíduos da Trashin. (Crédito: Divulgação)
Andressa Rovani | 30 nov 2021

No coração do mais importante parque da capital paulista, uma usina de reciclagem colabora para tornar o cenário ainda mais verde: tudo o que é descartado no complexo do Parque Ibirapuera passa por seleção, avaliação e reaproveitamento em direção à ideia de aterro zero.

Em outubro, o parque recolheu mais de 253 toneladas de resíduos. Desse material, 1,8 tonelada é reciclável – o principal material é plástico, que responde por 56% dos resíduos reaproveitáveis. Depois de passar pela estação avançada de triagem instalada, o material é enviado às cooperativas parceiras, que vendem o resíduo de volta para a indústria. Além de ajudar as cooperativas financeiramente, o programa também poupa o planeta – em outubro, a reciclagem impediu a emissão de 1.321 quilos de CO2 na atmosfera.

Já os resíduos orgânicos recolhidos nos restaurantes e outros pontos de descarte do parque somam 71 toneladas. Parte desse montante vai alimentar o biodigestor, que gera adubo para manter a área verde.

Um dos principais materiais que formam essa massa de resíduos é o coco. Só no mês passado, em uma contagem à parte, 180 toneladas do fruto foram descartadas após o consumo. E dá para entender por quê: como o parque é cenário do exercício diário dos paulistanos, o refresco vem em forma de água de coco gelada. E, em novembro, esse resíduo ganhou nova destinação: além de alimentar o biodigestor, vai virar copos e embalagens compostáveis.

Quem faz a gestão dos resíduos do Ibirapuera a Trashin, startup gaúcha voltada para a gestão de resíduos e logística reversa. A empresa nasceu em 2018 com a missão de levar educação e gestão de resíduos para escolas e condomínios, mas viu seu perfil se ampliar rapidamente graças à demanda de novos –e grandes– clientes.

No Ibirapuera, a Trashin opera toda a gestão de resíduos: sinaliza, coleta, seleciona e dá a destinação correta para os materiais recolhidos, além de oferecer treinamento e capacitação para toda a cadeia. Quem explica é Renan Vargas, diretor comercial da Trashin:

“Pegamos o que tem de melhor no mundo, estudamos o que está sendo feito, trouxemos o que é legal para o Brasil e adaptamos à nossa realidade, com cooperativas.”

Apesar de ter apenas quatro anos de vida, a startup já está acostumada a desafios – e o que fazer com tanto coco foi apenas um deles. Hoje, depois de estudo de soluções no exterior, a empresa cresceu junto com a demanda dos clientes e trabalha com dois eixos: a gestão de resíduos e a logística reversa.

LOGÍSTICA REVERSA: DA COLETA ATIVA À DESTINAÇÃO CORRETA

Na logística reversa, a empresa também faz a gestão de todo o ciclo: recolhe o produto em pontos planejados e sinalizados para isso, avalia o material descartado e dá a destinação correta ao produto pós-consumo.

Um dos principais clientes da Trashin é Havaianas, que neste ano iniciou um projeto para coletar chinelos usados e descartados pelos consumidores.

“Com Havaianas participamos desde a concepção da ideia até o coletor, execução e operação da cadeia de reciclagem. Cuidamos de ponta a ponta, é a nossa missão”, diz Vargas. “Além das lojas, já temos coletores em alguns condomínios e agora estamos instalando coletores até em redes varejistas, em outras marcas.”

“Estamos conseguindo trabalhar nesse meio porque melhoramos os índices de reciclagem do cliente e porque treinamos, capacita ao máximo, facilitamos a vida das pessoas na hora de descartar material. Fazemos isso com uma mensagem positiva, sem apontar dedo na cara.”

Os clientes da Trashin têm informações detalhas sobre o que está sendo descartado e o perfil desses resíduos. Esse é um ponto importante para aumentar a confiabilidade da cadeia e reforçar a governança da empresa sobre seus itens pós-consumo.

(Crédito: Divulgação)

Além disso, a startup também usa o diagnóstico sobre o resíduo para capacitar e treinar os funcionários da empresa cliente. Por exemplo, se o descarte não está sendo feito da forma correta ou se há um aumento expressivo de determinado material, isso gera uma avaliação sobre a necessidade de controlar melhor o que vai para o lixo.

A RELAÇÃO COM AS COOPERATIVAS E O DESAFIO DE CRESCER JUNTO

Isso porque a qualidade dos resíduos é um primeiro passo fundamental para que a cadeia funcione com eficiência máxima. Para Vargas, esse é um dos três grandes desafios da empresa ao trabalhar com resíduos no país. Ele reforça que estamos melhorando bastante em relação a dez anos, mas ainda há muito treinamento pela frente.

A outra questão é a logística, já que é caro operar um sistema que está baseado na identificação da fonte do produto, coleta e transporte de um material que muitas vezes tem pouco valor agregado. NetZero já contribuiu com essa discussão ao entrevistar a executiva de Sustentabilidade Onara Oliveira de Lima e ao contar a trajetória da Green Mining.

Vargas destaca, contudo, que a qualidade das cooperativas é ponto central do desenvolvimento dessa cadeia.

“São mais de 400 mil pessoas trabalhando com isso no Brasil. É uma massa grande de trabalhadores que são muito importantes para o processo, e agora as empresas estão atentando para isso, ajudando a cooperativa a se desenvolver. É um desafio que o Brasil está endereçando e tem muita empresa olhando para isso.”

Ele conta que empresas como iFood estão muito preocupadas com a destinação dos resíduos e como se pode contribuir para estimular esse ecossistema. Em São Paulo, há cooperativas que aproveitam 85% dos materiais que chegam para a reciclagem. O que sobra, ou os 15%, é um material que simplesmente não tem quem compre.

“Mas há cidades em que esse índice é muito pior, porque o que importa é como funciona esse mercado. Há cidades em que o vidro vale R$ 0,05 [o quilo]. Se o catador colocar isso na sua mochila, com 10 quilos vai ganhar R$ 0,50. Não faz nenhum sentido. Então ele vai para a latinha, que está mais de R$ 4 e, com 10 quilos, pode ganhar R$ 40. Então tem essa questão de valorização do resíduo.”

RECONHECIMENTO VEM EM FORMA DE CRESCIMENTO E PRÊMIOS

A Trashin já está presente em 10 estados brasileiros, com destaque para o Sul e Sudeste. O modelo é replicado para funcionar por meio do ecossistema de cada cidade, sem a necessidade, por exemplo, de enviar os materiais pós-consumo para outras regiões.

A empresa vai fechar 2021 três vezes maior do que no ano passado, e essa também é a meta para 2022. “Caprichamos em cada detalhe e queremos seguir inovando. Queremos continuar nessa batida para o ano que vem, com base em um serviço diferenciado, que cause impacto social com base na inovação”, diz Vargas. “Queremos gerar valor para todo mundo.”

O reconhecimento pelo trabalho da Trashin pode ser medido também pelo número de prêmios. Só nas últimas semanas, foram três. A cleantech está entre as 10 melhores startups do Brasil do Prêmio Reconhecimento ESG inovabra, concedido pelo Bradesco inovabra e a 100 Open Startups. Ela também passou a fazer parte da lista 100 Open Startups e venceu Amcham Arena 2021.

“O ESG potencializou esse trabalho desde o início da pandemia e está difundindo a pauta de sustentabilidade. Isso está trazendo todo mundo para atuar junto, ajudando a mudar o mercado.”



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